Procissão do Fogaréu

É meia-noite. As luzes do centro histórico da antiga Villa Boa de Goyas estão apagadas. O som ritmado dos tambores se aproximando acompanha o cortejo de 40 homens encapuzados, descalços, carregando tochas. Eles caminham rápido, estão em busca de um tal Jesus de Nazaré para prendê-Lo e O entregar a Caifás e seus sacerdotes, que darão continuidade ao Seu suplício. Agora os tambores estão mais perto, as chamas amareladas refletem sombras fantasmagóricas pelas paredes do casario colonial e pelas faces do povo que acompanha em silêncio a procissão. Logo tudo estará consumado.
Impossível acompanhar a Procissão do Fogareú da Cidade de Goiás e não se impressionar com essa cena, independente da crença de cada um. É um espetáculo único no Brasil e que merece ser visto.
A procissão foi trazida para Goiás pelo padre espanhol Perestelo de Vasconcelos, em 1745 e representa a prisão de Cristo pelos soldados romanos, caracterizados pelos 40 farricocos em suas vestimentas coloridas e com os tradicionais capuzes pontiagudos. Entre os séculos XV a XVIII, a presença dos farricocos em procissões européias tinha como próposito a expiação pública de seus pecados, a penitência e a estigmatização. A tradição até hoje guarda sigilo quanto a identidade dos participantes, como ainda é feito na Europa. A penitência deve ser mantida em segredo e o participante não deve se vangloriar dela, demonstrando assim humildade e respeito.
A Procissão do Fogaréu começa em frente a Igreja da Nossa Senhora da Boa Morte seguindo até a Igreja Nossa Senhora do Rosário, aonde é encenada a Última Ceia. Daí parte em direção à Igreja São Francisco de Paula, ponto final do cortejo, com uma celebração religiosa onde a imagem de Cristo, representado por um estandarte de linho pintado pelo artista plástico Veiga Valle no século XIX é hasteado.
Neste ano a Procissão do Fogaréu se inicia às 23h59 da Quarta-Feira Santa, dia 17 de abril.
Venha participar desse ato de fé único no Brasil!

 

Imagens: Curta Mais/Marcos Aleotti.